segunda-feira, julho 10, 2006

Bate Papo com Nanini



No dia 23 de fevereiro de 2006 estive no bate papo com Marco Nanini no SESI Paulista. Marco Nanini iniciou seu trabalho no teatro com a irreverente Dercy Gonçalves. Na época Dercy já era conhecida e aplaudida por todos por seu talento, “era uma grande estrela nacional” como disse Nanini. Ensaiou sozinho, sabia que iria fazer o espetáculo ao lado de Dercy, mas até o dia da estréia não tinha sido apresentado a ela. Também não teve contato com outros atores e nem havia passado por uma direção. Na hora do espetáculo era dirigido através de um ponto que dizia sua marcação. “Dercy Gonçalves foi uma grande professora, ela me ensinou a ouvir o público” disse referindo-se pelo prendizado que teve ao lado dela. Com grande orgulho fala de um acontecimento engraçado ao lado de Dercy, Nanini estava na coxia esperando seu momento de entrar em cena, e sem querer se desligou entrando no mundo da lua e esqueceu de entrar, quando se deu conta viu a Dercy de braços cruzados olhando para ele, imediatamente entrou em cena afobado derrubando tudo, ela começou a rir e disse: “vou mijar” e saiu deixando-o sozinho em cena. Por essas e outras que ele nunca esquece e conta com grande carinho e admiração dos momentos que passou ao lado desta artista que com certeza o ensinou muito. Ao falarmos sobre o teatro para o ator ele diz: “O teatro é muito importante para a formação do ator”, acredita que o teatro é a única escola do ator, ama e se dedica com toda sua alma ao teatro e seu oficio. E falando de teatro diz que seu melhor momento nos palcos foi ao lado de Gerald Tomas, que quando aceitou trabalhar com ele era chamado de louco. Para subir ao palco Nanini precisa estar preenchido, e toda base é a pesquisa. Se preencher é pesquisar tudo, até o que não vai ser usado, se não houver a pesquisa não há o que pensar como personagem e leva o espectador notar o vazio do mesmo. E será que ele tem este domínio todo ao criar um personagem? Não! Diz que sofre muito em tempo de criação de personagem, fica agressivo, eufórico depressivo, devido o trabalho de emoções que leva construir um personagem e sempre acha que nunca vai chegar na criação perfeita. Quando tocamos no assunto de novelas ele diz que não se sente bem fazer pela falta de controle que é sua dramaturgia e também pela falta de tempo que fica. Diz que TV pirata foi uma experiência muito boa na televisão e volta ao assunto da pesquisa dizendo que é igual mas cada uma tem seu tipo de trabalhar. Seu único problema em passar do teatro para a TV foram as câmeras, e as coisas vieram acontecendo naturalmente, mas só foi perder o medo das câmeras depois de um trabalho cinematográfico porque as posições delas no cinema são muito mais envolvidas com o ator do que na TV. Nanini também fez algumas direções e fala que começou a dirigir para poder observar o ator, “mas dirigir é insuportável porque tenho que responder tudo, até o botão da camisa que caiu” brinca. Tem o teatro brasileiro com muito orgulho e se admira pelo material humano. Não gosta de fugir do texto e leva sua arte com muita técnica. Ama Nelson Rodrigues dizendo que ele é universal. Sobre o ator e o diretor diz: “O importante de um diretor e o ator é a química, a simpatia entre ambos” . Ama uma boa direção, que mostra o porque dele estar interpretando aquilo. Faz vários trabalhos ao lado de seu amigo Ney Latorraca e entre eles apresentou “Irma Vap” por muitos anos, mas não faria novamente pela idade e pela correria que é este espetáculo, “não tenho físico para me trocar tanto” diz.

O que representa a teoria para a vida artística?A semente que se plantou lá atrás vai servir para sempre. A teoria é importante sempre, mas a intuição lhe dá muitas dicas, pois ela vem da emoção. Temos sempre que descobrir a grandiosidade de cada personagem.

Falamos do amigo Rogério Cardoso e ele diz que Rogério era muito engraçado, muito inteligente e um grande companheiro, não foi colocado outro ator em seu lugar porque ele é insubstituível. Todos os atores do seriado “A Grande Família” lembram dele sempre nas gravações.

Suas referências eram Oscarito e Eliana com as chanchadas. Logo depois ao conhecer o mundo artístico teve como referência o Paulo Autran, Fernanda Montenegro entre outros. E o que mais gosta de ler são romances, textos teóricos e gosta muito de todas as artes, o próprio teatro leva estar presente as outras artes. O que leva Marco Nanini a ser ator é gostar muito de pessoas, por isso faz personagens.

Para mim foi uma das mais importantes aulas que tive, ele é realmente ligado ao teatro e um grande conhecedor da arte. Neste bate papo havia estudantes de teatro que saíram de lá emocionados pela forma que Nanini fala do teatro, da criação, da responsabilidade. Marco Nanini um ator tímido, humorado, despojado, e o orgulho do teatro.

O teatro não foi importante para minha vida, o teatro é minha vida” Marco Nanini.

Foto: Eu e Nanini no bate papo.

Por Lell Trevisan