sexta-feira, agosto 10, 2012

Luiz Carlos Paraná – O boêmio do leite

A obra “Luiz Carlos Paraná – O boêmio do leite” de Thiago Bechara relembra a vida e a carreira de um compositor e cantor muito importante para a cultura popular brasileira. Através dela é possível conhecer o passado desse paranaense que encantou grandes nomes da música brasileira e emplacou sucessos nas vozes de Hebe Camargo, Agnaldo Rayol, Cascatinha e Inhana, Inezita Barroso, Rolando Boldrin, Carlos José, Angela Maria, Adauto Santos, dentre tantos outros. O livro tem importante papel social ao reforçar a memória sobre a cultura nacional de um país que não conhece o seu próprio passado. Luiz Carlos Paraná é natural de Ribeirão Claro, morou no Rio de Janeiro na mesma pensão do então músico iniciante, João Gilberto. Em São Paulo viveu o seu auge na famosa casa noturna, O Jogral, célebre ponto de reunião da intelectualidade brasileira e berço de alguns dos principais nomes da nossa música popular. O compositor fez parte da chamada Era dos Festivais, com a boa colocação das canções “De amor ou paz” e “Maria, carnaval e cinzas” defendidas respectivamente por Elza Soares e Roberto Carlos, em 1966 e 1967.

DATA: 24 de Agosto de 2012 das 19h às 21h30
LOCAL: Livraria Cultura - Loja de Artes no Conjunto Nacional
ENDEREÇO: Av. Paulista, 2073, São Paulo - SP

O AUTOR

Thiago Sogayar Bechara é um jovem autor que já escreveu quatro livros. Para 2012, além da biografia de Carlos Paraná, estão previstos os trabalhos que o autor desenvolveu em torno da arte circense em parceria com outros autores, e a biografia “Cida Moreira: A Dona das Canções”, também pela Imprensa Oficial, que edita a já consagrada Coleção Aplauso.

Após três anos dedicando-se à minuciosa reconstituição da trajetória artística e pessoal do compositor Luiz Carlos Paraná (1932-1970), o poeta e jornalista Thiago Sogayar Bechara anuncia o lançamento do seu livro biográfico “Luiz Carlos Paraná: O Boêmio do Leite” no dia 24 de agosto de 2012 das 19h às 21h30 na Livraria Cultura (Loja de Artes) do Conjunto Nacional em São Paulo.

O assunto não é novidade na carreira do jovem escritor, que vem se dedicando a perfis de artistas como as atrizes Imara Reis, Claudia Alencar e a cantora Cida Moreira com a perspectiva de resgatar nomes importantes da nossa cultura.

Desta vez, se aprofunda nas razões históricas pelas quais o Brasil ficou conhecido por seus próprios habitantes como um “país sem memória”, tomando como exemplo o caso de esquecimento do compositor agora relembrado.

Para compor sua última obra o autor realizou entrevista com mais de 100 pessoas, dentre elas, Julio Medaglia, Inezita Barroso, Paulo Vanzolini, Pena Branca, Chico Anysio, Léo Vaz, Ubiratan Lustosa, Mario Edson, Ana Maria Brandão e Pedro Miguel.

ASSUNTOS INTERESSANTES PARA ENTREVISTA

1) BANHEIRO PRÉ-PORNOGRAFADO

Em 1968, O Jogral se mudou do seu primeiro endereço (Galeria Metrópole) para a rua Avanhandava, em frente à atual pizzaria da Família Mancini. No novo endereço, antes da inauguração, Carlos Paraná teve o seguinte pensamento: “Bom, já que é inevitável que pessoas escrevam frases pornográficas nas portas e paredes dos banheiros, a solução é entrar na brincadeira e inaugurar o bar com o banheiro já pré-pornografado. Assim, antes que escrevam coisas apenas grosseiras, a gente escreve coisas próprias para um banheiro, mas espirituosas e inteligentes”. Dessa maneira, não apenas frases engraçadas foram escritas (“Estamos aqui para o que der e vier, mas, principalmente para o que vier e der” ou então “Não insista, colega. A última gota é da... cueca”), mas irreverentes e até de intelectuais (“De tanto ver triunfar as nulidades, vamos acabar aderindo”). O Jogral tinha espírito até no banheiro.

2) DESAFIOS E IMPROVISOS

Um dos pontos altos do Jogral, sobretudo no seu primeiro endereço, entre 1965 e 1968, eram os desafios caipiras entre Carlos Paraná e Paulo Vanzolini. Com seu lado humorístico definitivamente bastante desenvolvido apesar de seu temperamento mais recluso, Carlos Paraná fazia com que todo o bar se divertisse com suas imitações de artistas como o ator português Raul Solnado, com sotaque luso, ou então modas nordestinas. “De repente, manipulando o anticlímax com segurança, anunciava, falando como em Portugal se fala: ‘E agora, alguns pensamentos filosóficos: entre morcegos e ratos/ chegou-se lá a conclusão/ de que o morcego é um rato/ que entrou pra aviação. E outro: Joaquim abriu um restaurante/ teve um prejuízo colosso/ porque das onze às catorze/ Joaquim fechava pro almoço. E mais outro: Maria da Graça é uma/ cachopa d´olhos em brasa/ mora sozinha e não fuma/ mas tem cinzeiros em casa. Uma música de Paulo Vanzolini, ‘Capoeira do Arnaldo’ (...), fazia tal sucesso que o Carlos só a cantava noite adiantada para segurar a freguesia” (Trecho do livro de Marcus Pereira, “A História de O Jogral”, página 11).

3) TRIO MOCOTÓ, ORIGEM DO NOME
Já na fase da rua Avanhandava, o bar O Jogral passou a contar com um elenco grande de artistas contratados que se revezavam das 19h até o sol raiar naquele pequeno espaço com um piano e um palquinho no canto. Um desses nomes/ grupos que, inclusive, nasceram artisticamente na casa noturna de Carlos Paraná, foi o afamado e reconhecido Trio Mocotó, que até hoje nos brinda com sua levada de samba-rock, que por tantos anos acompanhou Jorge Bem, outro grande amigo de Paraná. O nome do trio é um caso curioso. Consta que todas as vezes que a namorada de um dos integrantes do grupo entrava no bar, logo alguém anunciava discretamente: “Olha o mocotó”, fazendo alusão maliciosa à beleza das pernas bem torneadas da moça. Muitos não sabiam que no Rio se usava este termo para designar tal parte do corpo feminino. Não é preciso dizer que muito rapidamente o apelido se popularizou como uma gíria jogralesca e sempre que alguma mulher bonita entrava na casa, todos logo se animavam dizendo: Olha o mocotóóóóó!!!!! A ponto de até a musa inspiradora do apelido ficar sabendo da história e a brincadeira se socializar. A coisa tomou uma proporção tal, que até Jorge Bem compôs uma canção inspirada no caso, que foi logo batizada de “Eu também quero mocotó”, defendida por Erlon Chaves e a Banda Veneno, no Festival Internacional da Canção, em 1970. Daí nasceu o nome do grupo, cria de Carlos Paraná, que, segundo o próprio, saiu do Jogral direto para Cannes, como um grupo instrumental internacional e bastante respeitado até os dias de hoje, composto por Joãozinho Parahyba, Fritz e Nereu.
4) JOÃO GILBERTO E O TÁXI.

Certa vez, com Luiz já morando em São Paulo, João Gilberto e ele saíram de taxi pela cidade para conseguirem conversar em paz e matar as saudades dos tempos em que foram companheiros de quarto numa pensão em Copacabana nos anos 1950. João já era um ídolo, Paraná ainda cantava em inferninhos, e mesmo de madrugada, havia poucos lugares onde pudessem prosear sem serem interrompidos por fãs. “O senhor nos leve na rua das Palmeiras, onde canta o sabiá!”. Essa beleza de verso foi dita por João ao taxista, e assim os dois saíram pela noite paulistana. Não queriam ir a lugar nenhum. Uma hora, como um turista qualquer, João pediu ao motorista que os levasse a algum lugar onde houvesse mulheres. Quando o papo já estava engatilhado, o taxi parou e anunciou: “Olha aí, as mulheres!”. “Ah, sim!”, respondia. Estavam na Boca do Lixo, em frente a um edifício com mulheres apinhadas na porta, e, para não decepcionar o motorista, João desceu e foi até lá conversar com elas. Voltou debaixo de palavrões. Segundo o depoimento escrito pelo próprio Paraná: “É que João não reparava onde pisar com sua poesia. Conversava comigo, com o motorista e com a prostituta no mesmo Tom em que conversava com Vinícius (desculpe o trocadilho, mas já que saiu, deixa ficar)”.

Sobre o quarto dividido pelos dois amigos em Copacabana, Luiz relembrou no mesmo texto: “Fora parar naquele apartamento de Copacabana, onde ficaria sendo o 14º inquilino, em busca de um violão emprestado, com o qual gravaria, no dia seguinte, algumas faixas com Elisete Cardoso, naquele LP antológico [Canção do amor demais, 1958]. Já começava a fazer escola, mas ainda não tinha violão e levaria muito tempo para ter um, se é que agora tem. Um dia, já em São Paulo, veio buscar o meu mais uma vez, para cantar no programa de entrega dos prêmios CHICO VIOLA. Quando chegou a sua vez, apareceu tocando num violão diferente. O meu ele tinha acabado de quebrar na cabeça do Tito Madi”, conforme confirmou Ruy Castro em seu livro “Chega de saudade”.